Quando pensamos em um cão-guia, é comum imaginar imediatamente o animal acompanhando uma pessoa com deficiência visual durante seus deslocamentos.
Pensamos na condução, nos obstáculos, nas ruas, nos ambientes movimentados e nas diferentes situações nas quais o cão participa da mobilidade da pessoa.
Mas existe uma questão que também precisa fazer parte dessa compreensão:
O que acontece quando o cão não está trabalhando?
Um cão-guia não deixa de ser um cão quando termina um deslocamento.
Ele continua tendo necessidades comportamentais, físicas e sociais próprias de sua espécie.
Por isso, descanso, lazer, brincadeira, exploração, convivência e momentos de tranquilidade também fazem parte de uma vida equilibrada.
O cão-guia não trabalha o tempo todo
A função de guia representa uma parte importante da vida daquele animal, mas não representa toda a sua existência.
Durante os períodos em que não está realizando uma atividade de condução, o cão continua sendo um indivíduo com necessidades próprias.
Ele precisa descansar, brincar, explorar, interagir e simplesmente viver como cão.
Descanso também faz parte da formação
O descanso possui papel fundamental na vida de qualquer cão.
Durante os períodos de repouso, o organismo tem oportunidade de recuperar-se das atividades realizadas e lidar com as experiências vivenciadas.
Um cão submetido constantemente a atividades, estímulos e demandas sem períodos adequados de recuperação pode apresentar sinais de cansaço, dificuldade de adaptação ou alterações comportamentais.
Por isso, compreender os limites individuais do animal é uma parte importante de uma formação responsável.
Lazer não é perda de tempo
Algumas pessoas podem imaginar que, para um cão destinado à função de guia, todo momento deveria ser aproveitado para algum tipo de treinamento.
Essa visão reduz a vida do animal à sua função.
O lazer possui importância própria.
Brincadeiras, atividades compatíveis com o indivíduo, exploração de ambientes e momentos de interação podem proporcionar experiências importantes para o bem-estar do cão.
Além disso, atividades de lazer podem contribuir para que o animal tenha oportunidades de expressar comportamentos naturais e desenvolver diferentes formas de interação com o ambiente.
Descansar não significa não fazer nada
O descanso é uma parte ativa da manutenção do equilíbrio físico e comportamental.
Da mesma maneira, o lazer não deve ser entendido como algo contrário à formação. Ele pode fazer parte de uma rotina equilibrada e compatível com as necessidades do animal.
O cão também precisa explorar o mundo
Explorar é uma parte importante da experiência de muitos animais.
Cheiros, sons, superfícies, objetos e diferentes ambientes fornecem informações que participam da experiência cotidiana do cão.
Um cão que possui oportunidades adequadas de exploração pode ampliar seu repertório de experiências dentro de condições compatíveis com sua segurança e bem-estar.
Isso não significa permitir que o animal faça qualquer coisa em qualquer situação.
Significa proporcionar oportunidades planejadas e adequadas às características daquele indivíduo.
A convivência familiar também importa
O cão-guia não deveria ser compreendido apenas como um instrumento de mobilidade.
Ele vive dentro de uma família, participa de uma rotina e estabelece relações com as pessoas ao seu redor.
A convivência cotidiana oferece inúmeras oportunidades de interação e aprendizagem.
Momentos tranquilos em casa, interação com pessoas conhecidas, brincadeiras e simplesmente estar junto também fazem parte da relação construída entre cão e pessoa.
A função não deve apagar a individualidade
Cada cão possui características próprias.
Mesmo animais preparados para desempenhar a mesma função podem apresentar diferenças de temperamento, preferências, níveis de energia, formas de interação e necessidades individuais.
Reconhecer essas diferenças é importante para que a rotina seja construída de maneira adequada.
Uma formação responsável estabelece objetivos, mas também observa o indivíduo que está sendo formado.
O objetivo não é transformar o cão em uma máquina
Um cão-guia precisa aprender comportamentos importantes para sua função, mas continua sendo um animal com necessidades próprias.
Quanto mais compreendemos essa realidade, maiores são as possibilidades de construir uma rotina equilibrada e respeitosa.
Trabalho e descanso precisam coexistir
Uma rotina equilibrada não precisa separar completamente o cão em duas versões: o cão que trabalha e o cão que descansa.
O que existe é o mesmo animal vivendo diferentes situações dentro de sua rotina.
Durante um deslocamento, determinados comportamentos são importantes.
Em casa, em momentos de lazer ou durante o descanso, outras necessidades passam a ocupar espaço.
A capacidade de transitar entre diferentes contextos faz parte da vida cotidiana.
O equilíbrio também influencia a parceria
Quando cão e pessoa convivem durante muitos anos, a relação construída entre eles ultrapassa os momentos de deslocamento.
Existem momentos de trabalho, momentos de descanso, momentos de brincadeira e momentos simplesmente compartilhados.
Essa convivência contribui para que a dupla desenvolva conhecimento mútuo.
A pessoa passa a reconhecer melhor os comportamentos do cão, suas preferências e seus sinais.
O cão, por sua vez, convive com uma pessoa que também faz parte de sua história e de seu ambiente social.
Um cão-guia não é apenas um animal preparado para uma função.
É um cão que vive uma vida inteira ao lado de uma pessoa.
E quando o cão não está de guia?
Essa pergunta ajuda a ampliar nossa compreensão sobre a vida desses animais.
Quando a atividade de condução termina, o cão pode voltar sua atenção para outras experiências.
Pode descansar, brincar, interagir, explorar e simplesmente permanecer ao lado de sua família.
Isso não diminui sua importância como cão-guia.
Pelo contrário.
Reconhecer que ele também precisa viver como cão é uma forma de respeitar sua natureza e seu bem-estar.
A perspectiva Cão guiAmigo
A Metodologia Cão guiAmigo compreende a formação como um processo relacionado à vida real.
Por isso, preparar um cão para a função de guia não significa organizar sua existência exclusivamente em torno do trabalho.
A formação precisa considerar desenvolvimento, aprendizagem, experiências, comunicação, adaptação, descanso, lazer, convivência e bem-estar.
O cão precisa estar preparado para exercer sua função, mas também precisa ter uma rotina compatível com suas necessidades individuais.
Essa visão está diretamente relacionada à ideia de construir uma parceria para a vida.
Preparar para a vida é mais amplo do que preparar para a função
Quando pensamos somente na função, podemos concentrar nossa atenção naquilo que o cão precisa fazer.
Quando pensamos na vida, precisamos considerar também aquilo que o cão precisa viver.
Essa diferença é importante.
Uma formação completa precisa olhar para o animal como um indivíduo inserido em um ambiente, em uma família e em uma relação de longo prazo.
O objetivo não é simplesmente obter um cão capaz de realizar determinadas tarefas.
É contribuir para a construção de uma dupla capaz de viver uma rotina equilibrada, funcional e respeitosa.
Conclusão
O cão-guia possui uma função extremamente importante na mobilidade e na autonomia da pessoa com deficiência visual.
Entretanto, essa função representa apenas uma parte da vida daquele animal.
Descanso, lazer, exploração, convivência familiar, interação e momentos de tranquilidade também fazem parte de uma vida equilibrada.
Reconhecer essas necessidades não significa diminuir a importância da formação.
Significa compreender que uma formação responsável precisa preparar o cão para uma vida na qual trabalho e descanso possam coexistir.
Na perspectiva Cão guiAmigo, formar uma parceria significa olhar para o cão de maneira integral.
Ele precisa aprender, desenvolver-se, desempenhar sua função e adaptar-se ao mundo.
Mas também precisa ter espaço para simplesmente ser cão.
O cão-guia precisa estar preparado para trabalhar.
Mas também precisa ter uma vida para viver.
Leia também
Para continuar conhecendo outros aspectos importantes da vida cotidiana dos cães, confira também:
- Por que o descanso é tão importante para a vida de um cão?
- Brincar também faz parte da vida do cão
- A importância de uma rotina equilibrada na vida do cão
- Por que explorar o ambiente faz parte da vida de um cão?
- A convivência familiar e a vida cotidiana do cão
- O que significa proporcionar qualidade de vida para um cão?
- As necessidades do cão mudam ao longo da vida?
- Quando o cão não está trabalhando: entendendo os momentos de descanso
- A importância de respeitar os limites e o tempo de cada cão