O cão-guia não começa a construir a mobilidade sozinho
Quando uma pessoa com deficiência visual pensa em utilizar um cão-guia, é natural imaginar as mudanças que poderão acontecer depois da chegada do animal.
A possibilidade de contar com um cão durante os deslocamentos pode representar uma nova experiência de mobilidade e ampliar as possibilidades de participação em diferentes ambientes.
Entretanto, a chegada do cão não significa o início absoluto do desenvolvimento da mobilidade.
Antes de existir uma dupla, já existe uma pessoa com sua própria história, suas experiências e suas formas de compreender e utilizar o ambiente.
A parceria começa antes da condução
O cão-guia passa a integrar uma pessoa que já possui conhecimentos, experiências e estratégias relacionadas à própria mobilidade.
Quanto melhor compreendida for essa base, mais consciente tende a ser a participação da pessoa na futura parceria.
O que são habilidades de orientação e mobilidade?
Orientação e mobilidade envolvem diferentes capacidades relacionadas à compreensão do ambiente e à realização de deslocamentos.
Orientar-se significa compreender onde estamos, reconhecer referências e estabelecer uma relação entre nossa posição e o espaço ao redor.
Mobilidade está relacionada à capacidade de realizar deslocamentos utilizando recursos, estratégias e conhecimentos adequados às diferentes situações.
Essas habilidades não estão limitadas a um único tipo de ambiente.
Elas podem ser utilizadas em casa, nas ruas, em estabelecimentos, no transporte e em diversos outros espaços que fazem parte da vida cotidiana.
A pessoa continua sendo participante da própria mobilidade
Uma das ideias mais importantes quando falamos sobre cão-guia é compreender que o animal não assume sozinho o controle do deslocamento.
A pessoa continua tendo objetivos, destinos, preferências e conhecimentos sobre aquilo que deseja realizar.
Ela também continua recebendo informações do ambiente e precisa participar das decisões relacionadas ao percurso.
Por isso, desenvolver habilidades de orientação e mobilidade antes da chegada do cão contribui para que a pessoa esteja preparada para continuar exercendo esse papel.
O cão-guia não substitui o conhecimento da pessoa
O animal pode participar da condução e oferecer respostas importantes durante o deslocamento.
Mas a pessoa continua precisando compreender seu destino, sua direção e sua relação com o ambiente.
Conhecer o ambiente ajuda a compreender o deslocamento
Antes da chegada do cão-guia, a pessoa já pode ter desenvolvido diferentes formas de reconhecer os ambientes que frequenta.
Sons, características das calçadas, mudanças de piso, fachadas, cruzamentos, movimentações e outras referências podem contribuir para a construção de uma compreensão espacial.
Essas informações continuam existindo depois que o cão passa a fazer parte da mobilidade.
O que muda é que a pessoa passa a compartilhar determinados momentos do deslocamento com outro indivíduo.
Por isso, conhecer o próprio ambiente e compreender como utilizamos suas referências continua sendo importante.
A bengala também faz parte desse processo
Para muitas pessoas com deficiência visual, a bengala longa representa um importante recurso de orientação e mobilidade.
Por meio dela, a pessoa pode obter informações sobre características do espaço, identificar obstáculos e desenvolver estratégias para realizar diferentes deslocamentos.
A utilização posterior de um cão-guia não significa apagar todo esse conhecimento construído anteriormente.
Pelo contrário.
Experiências anteriores podem contribuir para que a pessoa compreenda melhor seu próprio deslocamento e participe da nova dinâmica formada com o cão.
Mobilidade não é apenas chegar ao destino
É possível pensar na mobilidade simplesmente como a capacidade de sair de um ponto e chegar a outro.
Mas essa visão é limitada.
Durante um deslocamento, a pessoa precisa compreender o ambiente, reconhecer mudanças, tomar decisões, lidar com situações inesperadas e adaptar suas estratégias.
Também pode precisar interromper um percurso, modificar uma direção ou procurar novas referências.
Tudo isso faz parte da experiência de mobilidade.
A chegada do cão acrescenta uma nova dimensão
Quando o cão-guia passa a fazer parte da vida da pessoa, surge uma nova dinâmica.
Agora existem dois indivíduos participando de uma atividade que precisa acontecer de maneira coordenada.
O cão apresenta respostas relacionadas àquilo que aprendeu durante sua formação.
A pessoa, por sua vez, precisa compreender essas respostas e integrá-las às próprias estratégias de orientação e mobilidade.
Essa integração não acontece simplesmente porque o cão chegou.
Ela é construída progressivamente por meio da convivência e da experiência compartilhada.
O cão-guia não substitui a mobilidade que a pessoa já construiu.
Ele passa a fazer parte dela.
A pessoa precisa continuar sabendo para onde deseja ir
Um cão-guia pode participar da condução, mas não determina sozinho todos os destinos que fazem parte da vida da pessoa.
É a pessoa quem decide onde deseja chegar e quais atividades pretende realizar.
Para isso, continua sendo importante compreender direções, referências e características do percurso.
Em um ambiente conhecido, essas informações podem estar muito bem estabelecidas.
Em um ambiente novo, será necessário construir novamente referências que ajudem a compreender o espaço.
Situações novas exigem adaptação
A vida cotidiana raramente acontece exatamente da mesma maneira todos os dias.
Uma rua pode estar em obras. Um estabelecimento pode mudar sua entrada. Um caminho pode apresentar uma nova barreira. Um local pode estar mais movimentado do que o habitual.
Essas mudanças fazem parte da realidade da mobilidade.
Por isso, mais importante do que conhecer perfeitamente um determinado percurso é desenvolver recursos para compreender situações diferentes.
Essa capacidade de adaptação continua sendo importante quando a pessoa passa a utilizar um cão-guia.
A comunicação com o cão também depende da pessoa
A comunicação entre cão e pessoa é construída ao longo da convivência.
A pessoa aprende a perceber determinadas respostas apresentadas pelo cão e também aprende a fornecer informações de maneira adequada.
Para que essa comunicação aconteça de maneira eficiente, é importante que a pessoa esteja presente e participe ativamente do processo.
Isso significa observar, interpretar, responder e tomar decisões de acordo com aquilo que está acontecendo.
A mobilidade, portanto, não acontece de forma automática.
Desenvolver autonomia não significa fazer tudo sozinho
Autonomia não deve ser confundida com ausência de qualquer tipo de assistência.
Uma pessoa pode utilizar recursos, tecnologias, informações ou um cão-guia e continuar exercendo autonomia sobre sua própria vida.
A autonomia está relacionada à possibilidade de participar das próprias escolhas e utilizar os recursos disponíveis de maneira consciente.
Nesse sentido, aprender a utilizar um cão-guia também significa aprender a integrar esse recurso à própria vida sem deixar de participar das decisões.
Autonomia não significa ausência de apoio. Significa participação consciente nas próprias escolhas.
A preparação ajuda a construir confiança
Conhecer o próprio modo de se orientar e compreender as próprias estratégias de mobilidade pode contribuir para que a pessoa se sinta mais preparada diante de novas experiências.
A chegada de um cão-guia representa uma mudança importante na rotina e na maneira de realizar determinados deslocamentos.
Por isso, contar com uma base de conhecimentos e experiências anteriores pode facilitar a compreensão dessa nova dinâmica.
A confiança da dupla não nasce apenas do desempenho do cão.
Ela também é construída pela capacidade dos dois participantes de compreenderem seus papéis e desenvolverem uma comunicação funcional.
O que muda quando a pessoa já possui repertório?
Uma pessoa que já possui experiências de orientação e mobilidade tem referências próprias sobre seus deslocamentos.
Ela conhece recursos que utiliza, reconhece situações que fazem parte de sua rotina e possui estratégias para lidar com diferentes ambientes.
Quando o cão-guia passa a integrar essa realidade, essas experiências não desaparecem.
Elas passam a fazer parte da construção de uma nova forma de mobilidade compartilhada.
Isso ajuda a compreender por que a preparação da pessoa é uma parte importante da formação da dupla.
O cão também precisa encontrar uma pessoa preparada para a parceria
A formação de um cão-guia envolve o desenvolvimento de diferentes habilidades relacionadas à condução, ao ambiente e à convivência.
Porém, o resultado esperado não é simplesmente um animal capaz de executar determinadas respostas.
Existe uma pessoa que também precisa compreender como participar da relação.
A parceria acontece quando as habilidades dos dois indivíduos podem ser integradas dentro das situações reais da vida cotidiana.
A perspectiva Cão guiAmigo
Na perspectiva Cão guiAmigo, a formação de uma dupla não deve ser compreendida apenas como a preparação de um cão para executar determinadas tarefas.
A pessoa também faz parte dessa construção.
Desenvolver conhecimentos de orientação e mobilidade antes da chegada do cão contribui para que a pessoa compreenda melhor seu próprio papel na futura parceria.
Essa compreensão é importante porque o cão-guia não passa a conduzir uma pessoa que deixou de participar de sua mobilidade.
Ele passa a trabalhar em conjunto com uma pessoa que continua tomando decisões, percebendo o ambiente e participando ativamente do deslocamento.
A formação de uma parceria funcional depende justamente da integração progressiva dessas diferentes capacidades.
O cão-guia não elimina a necessidade de orientação e mobilidade
A chegada do cão não torna desnecessários os conhecimentos e as habilidades que ajudam a pessoa a compreender sua relação com o ambiente.
Esses conhecimentos continuam fazendo parte da mobilidade e passam a ser integrados à atuação do cão.
Preparar-se é também compreender a parceria
Desenvolver orientação e mobilidade antes da chegada do cão-guia não significa antecipar todos os desafios que poderão surgir no futuro.
Também não significa que a pessoa precise conhecer previamente todos os lugares onde irá utilizar o cão.
Significa construir recursos que possam ser utilizados diante de diferentes situações.
Significa compreender o próprio papel, reconhecer referências, utilizar estratégias e estar disposto a continuar aprendendo.
Dessa forma, a chegada do cão representa não o começo absoluto da mobilidade, mas uma nova etapa dentro de uma trajetória que já existe.
Conclusão
A orientação e a mobilidade são partes importantes da autonomia da pessoa com deficiência visual.
Quando essa pessoa passa a utilizar um cão-guia, essas habilidades continuam sendo necessárias.
O cão passa a integrar uma mobilidade que já possui uma história, experiências e conhecimentos construídos pela pessoa.
Por isso, desenvolver habilidades de orientação e mobilidade antes da chegada do cão pode contribuir para uma participação mais consciente na futura parceria.
A pessoa continua precisando compreender seu destino, perceber o ambiente, utilizar referências, tomar decisões e comunicar-se com o cão.
O animal, por sua vez, passa a participar dessa dinâmica utilizando as habilidades desenvolvidas durante sua formação.
Quando essas capacidades são integradas, a mobilidade deixa de ser compreendida como uma atividade realizada por apenas um dos participantes.
Ela passa a representar uma construção compartilhada, na qual cada integrante da dupla possui um papel importante.
Antes de formar uma dupla com um cão-guia, a pessoa já possui uma história de mobilidade.
A parceria começa quando essas experiências passam a ser integradas à atuação do cão.