O comportamento é uma forma de expressão
O cão não utiliza palavras para explicar aquilo que está acontecendo com ele.
Ainda assim, ele está constantemente produzindo informações por meio de suas ações, posturas, movimentos, vocalizações e respostas diante do ambiente.
Quando um cão se afasta, late, permanece imóvel, procura contato, evita determinada situação ou repete uma ação, existe um contexto relacionado àquele comportamento.
Isso não significa que todo comportamento possua uma única mensagem simples e facilmente identificável.
Significa que o comportamento precisa ser observado dentro da situação em que acontece.
Antes de corrigir, precisamos compreender
Um comportamento pode parecer inadequado quando observamos apenas o resultado final.
Quando analisamos o contexto, porém, podemos encontrar informações importantes sobre aquilo que está influenciando a resposta do cão.
O comportamento não acontece por acaso
Todo comportamento acontece em determinadas condições.
O ambiente, as experiências anteriores, o estado emocional, os estímulos presentes e aquilo que acontece depois da resposta podem participar desse processo.
Por isso, observar apenas o que o cão fez não é suficiente para compreender completamente seu comportamento.
É necessário observar também o que estava acontecendo antes e o que aconteceu depois.
Essa análise permite enxergar o comportamento como parte de uma sequência de acontecimentos, e não como uma ação isolada.
O que aconteceu antes?
Uma das primeiras perguntas que podemos fazer diante de um comportamento é: o que aconteceu imediatamente antes dele?
Um barulho apareceu? Uma pessoa se aproximou? Outro animal entrou no ambiente? O cão foi chamado? Alguém tentou tocá-lo?
Pequenas mudanças no ambiente podem modificar significativamente a resposta de um cão.
Identificar esses acontecimentos ajuda a perceber quais situações estão relacionadas ao comportamento observado.
O antecedente é uma informação importante
Aquilo que acontece antes de um comportamento pode ajudar a explicar por que determinada resposta apareceu naquele momento.
Observar o início da sequência evita conclusões baseadas somente naquilo que aconteceu no final.
O que acontece depois?
Também é importante observar o que acontece depois que o cão apresenta determinado comportamento.
Uma pessoa se aproxima? Se afasta? Oferece atenção? Interrompe uma atividade? Entrega alguma coisa? Retira algum estímulo?
Essas consequências podem influenciar a probabilidade de aquele comportamento voltar a acontecer em situações semelhantes.
Por isso, compreender o comportamento exige observar a sequência completa.
O comportamento não está separado daquilo que acontece ao seu redor.
O mesmo comportamento pode ter contextos diferentes
Um dos erros mais comuns na interpretação do comportamento canino é assumir que determinada ação sempre possui exatamente o mesmo significado.
Um cão pode latir diante de uma pessoa que se aproxima, latir quando deseja interação ou latir diante de um estímulo que considera relevante.
A vocalização é semelhante, mas o contexto pode ser completamente diferente.
Por isso, não basta identificar o comportamento.
É necessário investigar em quais situações ele aparece, com que frequência ocorre e quais acontecimentos estão relacionados a ele.
A linguagem corporal também comunica
A comunicação do cão não acontece apenas por meio de latidos ou outros sons.
Postura corporal, movimentos, orientação do corpo, posição da cabeça, cauda, orelhas, distância em relação às pessoas e outros animais e mudanças na movimentação também fornecem informações.
Esses sinais precisam ser observados em conjunto.
Interpretar um único elemento isoladamente pode levar a conclusões equivocadas.
O contexto continua sendo fundamental para compreender aquilo que o cão está demonstrando.
Observe o conjunto
Um sinal isolado raramente conta toda a história.
A postura corporal, o ambiente, os estímulos presentes, a distância, a interação com as pessoas e o histórico do cão precisam ser considerados em conjunto.
Comportamentos também podem indicar desconforto
Alguns comportamentos que são classificados rapidamente como desobediência ou teimosia podem estar relacionados a desconforto, insegurança, dificuldade de compreensão ou excesso de estímulos.
Um cão que evita determinada situação pode estar demonstrando que aquela experiência está sendo difícil para ele.
Um cão que tenta se afastar pode estar procurando aumentar a distância de algo que considera desconfortável.
Um cão que apresenta respostas mais intensas em determinado ambiente pode estar encontrando naquele contexto uma quantidade de estímulos maior do que consegue administrar naquele momento.
Isso não significa que todo comportamento de afastamento tenha uma única causa.
Significa que a possibilidade de desconforto precisa fazer parte da observação antes de classificarmos simplesmente a resposta como inadequada.
Nem todo comportamento é um pedido de atenção
É comum interpretar determinados comportamentos como uma tentativa de chamar a atenção do tutor.
Em algumas situações isso pode fazer parte da explicação, mas essa conclusão não deve ser utilizada automaticamente para qualquer comportamento.
O cão pode estar respondendo a um estímulo do ambiente, buscando acesso a alguma coisa, tentando evitar uma situação, explorando, reagindo a uma experiência anterior ou simplesmente apresentando uma resposta que foi fortalecida ao longo do tempo.
Por isso, atribuir uma intenção humana ao comportamento sem analisar o contexto pode dificultar a compreensão do que realmente está acontecendo.
Cães não fazem tudo para provocar seus tutores
Outra interpretação comum é imaginar que o cão está deliberadamente tentando desafiar, provocar ou contrariar uma pessoa.
Essa leitura pode transformar uma situação que deveria ser analisada em uma disputa entre tutor e animal.
O cão, porém, está respondendo às condições que encontra e às relações que construiu ao longo de suas experiências.
Antes de interpretar um comportamento como uma tentativa de desafiar alguém, é mais útil perguntar o que está mantendo aquela resposta.
Essa mudança de perspectiva permite substituir julgamentos por observação.
Compreender o comportamento é mais útil do que atribuir ao cão uma intenção que talvez ele não tenha.
O histórico do cão faz diferença
Nenhum comportamento existe completamente separado da história daquele indivíduo.
Experiências anteriores podem influenciar a maneira como o cão responde diante de novas situações.
Um cão que já vivenciou determinado ambiente de forma positiva pode apresentar respostas diferentes de outro que teve experiências negativas ou pouco contato com aquela situação.
Da mesma maneira, comportamentos que foram reforçados repetidamente podem se tornar mais prováveis no futuro.
Conhecer o histórico ajuda a interpretar o presente com maior precisão.
O ambiente também pode estar participando
Às vezes, o comportamento que estamos tentando modificar é influenciado diretamente pela forma como o ambiente está organizado.
Excesso de ruído, grande quantidade de pessoas, presença de outros animais, falta de espaço, mudanças na rotina ou dificuldade de acesso a determinados recursos podem alterar as respostas do cão.
Se o ambiente contribui para o surgimento de determinado comportamento, trabalhar somente sobre a resposta final pode não ser suficiente.
Em algumas situações, modificar as condições do ambiente é parte importante da solução.
Nem sempre o problema está apenas no comportamento
Quando uma resposta se repete, é importante observar se existe alguma condição ambiental favorecendo sua ocorrência.
Compreender o ambiente ajuda a encontrar estratégias mais adequadas e evita que toda a responsabilidade seja colocada sobre o cão.
Comportamento e comunicação não são a mesma coisa
Dizer que o comportamento comunica informações não significa afirmar que o cão esteja planejando uma mensagem consciente da mesma maneira que uma pessoa escolhe suas palavras.
O comportamento é uma resposta observável que acontece em determinado contexto e que pode produzir consequências.
Ao observá-lo, podemos obter informações importantes sobre as condições nas quais o cão está vivendo e sobre aquilo que pode estar influenciando suas respostas.
Por isso, falar em comunicação deve ser entendido como uma forma de reconhecer que o comportamento fornece informações que precisamos aprender a interpretar.
Observar é diferente de julgar
Existe uma diferença importante entre dizer “este cão é agressivo” e descrever aquilo que realmente aconteceu.
Uma descrição mais precisa poderia indicar que o cão rosnou quando uma pessoa se aproximou de determinado recurso, por exemplo.
A segunda forma de descrever a situação fornece informações que podem ser analisadas.
A primeira transforma uma resposta em uma característica permanente do indivíduo e pode esconder o contexto em que o comportamento aconteceu.
Quanto mais objetiva for nossa observação, melhores serão as condições para compreender o comportamento.
O que devemos observar?
Diante de um comportamento que queremos compreender, algumas perguntas podem ajudar a organizar a observação.
O que aconteceu antes?
Onde o comportamento aconteceu?
Quem estava presente?
Quais estímulos estavam disponíveis?
O que exatamente o cão fez?
O que aconteceu imediatamente depois?
Esse comportamento acontece em outras situações?
Com que frequência ele aparece?
Houve alguma mudança recente na rotina ou no ambiente?
Essas perguntas não fornecem automaticamente uma resposta definitiva, mas ajudam a construir uma observação mais organizada e menos baseada em suposições.
Compreender antes de intervir
Quando entendemos melhor o contexto de um comportamento, podemos tomar decisões mais adequadas sobre como agir diante dele.
Em vez de simplesmente tentar eliminar uma resposta, podemos investigar o que está favorecendo sua ocorrência e quais alternativas podem ser ensinadas.
Também podemos avaliar se o ambiente precisa ser ajustado ou se o cão precisa de experiências diferentes para conseguir responder melhor.
Dessa maneira, o treinamento deixa de ser apenas uma tentativa de controlar comportamentos e passa a ser também uma forma de construir novas possibilidades de resposta.
O comportamento mostra o que o cão está fazendo.
O contexto ajuda a compreender por que aquela resposta está acontecendo.
Comportamento, aprendizagem e formação
O estudo do comportamento está diretamente relacionado ao processo de aprendizagem.
Como vimos no artigo anterior, o cão aprende a partir das experiências que vivencia, das associações que constrói e das consequências de suas ações.
Isso significa que observar o comportamento também permite identificar parte daquilo que o cão está aprendendo com suas experiências.
Uma resposta que se repete pode indicar que determinadas condições estão favorecendo sua manutenção.
Por outro lado, uma mudança de comportamento pode indicar que novas experiências estão produzindo novas relações com o ambiente.
Aprendizagem e comportamento, portanto, estão profundamente relacionados.
A perspectiva Cão guiAmigo
Na formação de cães-guia, compreender o comportamento é especialmente importante porque o cão precisa desenvolver respostas adequadas em situações reais de convivência e mobilidade.
O trabalho não pode se limitar à observação de respostas dentro de ambientes controlados.
O cão precisa vivenciar diferentes pessoas, ambientes, sons, superfícies, deslocamentos, obstáculos e mudanças de contexto.
Ao mesmo tempo, cada resposta apresentada pelo indivíduo precisa ser observada dentro da situação em que ocorreu.
Isso permite compreender melhor o estágio de desenvolvimento do cão e identificar quais experiências podem contribuir para sua formação.
Na perspectiva Cão guiAmigo, compreender o comportamento significa olhar para o indivíduo como parte de uma relação contínua entre cão, pessoa e ambiente.
Formar um cão para a parceria exige compreender suas respostas, suas experiências e o contexto no qual elas acontecem.
O comportamento também ajuda o tutor a aprender
Quando começamos a observar o comportamento dessa maneira, descobrimos que o processo de aprendizagem não acontece apenas com o cão.
O tutor também precisa aprender a perceber sinais, reconhecer padrões e ajustar sua própria forma de interagir com o animal.
Uma comunicação mais eficiente depende da capacidade de observar aquilo que o cão está demonstrando.
Isso não significa tentar adivinhar todos os pensamentos do animal.
Significa desenvolver uma observação mais cuidadosa, baseada no comportamento real e nas circunstâncias em que ele ocorre.
Compreender muda a forma de treinar
Quando o tutor passa a enxergar o comportamento como uma fonte de informação, a maneira de conduzir o treinamento também pode mudar.
Em vez de perguntar apenas: “Como faço para impedir esse comportamento?”, podemos perguntar: “O que está acontecendo para que esse comportamento esteja aparecendo?”
Essa segunda pergunta abre espaço para investigar o ambiente, as experiências, as consequências e as necessidades daquele indivíduo.
A partir dessa compreensão, torna-se possível pensar em intervenções mais coerentes e adequadas.
O treinamento deixa de ser apenas uma tentativa de controlar uma resposta e passa a considerar o processo que está produzindo aquela resposta.
Conclusão
O comportamento do cão fornece informações importantes sobre sua relação com o ambiente, com as pessoas e com as experiências que vivencia.
Para compreendê-lo, não basta observar apenas aquilo que o cão fez.
É necessário considerar o que aconteceu antes, o contexto em que a resposta apareceu e aquilo que aconteceu depois.
Também é importante considerar o histórico do indivíduo, suas experiências anteriores, suas características próprias e as condições ambientais presentes.
Dessa maneira, podemos substituir interpretações apressadas por uma observação mais cuidadosa.
Essa mudança de perspectiva é fundamental para qualquer processo de treinamento, porque compreender o comportamento permite trabalhar de maneira mais consciente sobre aquilo que está acontecendo.
Na formação de cães-guia, essa compreensão ganha ainda mais importância, pois o cão precisará responder adequadamente a diferentes situações da vida real ao lado de uma pessoa com deficiência visual.
Na perspectiva Cão guiAmigo, observar o comportamento é também aprender a enxergar o processo de formação como uma construção contínua de experiências, comunicação e parceria.
Antes de tentar mudar um comportamento, precisamos aprender a compreender aquilo que ele está nos mostrando.
O comportamento é uma informação.
Quando aprendemos a observá-lo, começamos a compreender melhor o cão que está diante de nós.