Quando um comportamento parece inadequado, o que devemos observar primeiro?

Antes de classificar um comportamento como errado, problemático ou indesejado, é importante compreender o que estava acontecendo ao redor do cão e em quais circunstâncias aquela resposta apareceu.

Ouvir este artigo

A leitura está parada.

Antes de corrigir, precisamos compreender

Quando um cão apresenta um comportamento que consideramos inadequado, a reação mais comum é querer interrompê-lo imediatamente.

Afinal, se algo está incomodando, causando dificuldade ou não corresponde ao que esperamos, parece natural pensar primeiro em como fazer aquilo parar.

Mas existe uma pergunta que pode ser ainda mais importante antes de qualquer conclusão:

O que exatamente está acontecendo?

Observar o comportamento com atenção pode revelar que aquilo que parecia simples à primeira vista faz parte de uma situação muito mais ampla.

E quanto melhor compreendemos a situação, melhores são as condições para pensar sobre como lidar com ela.

"Inadequado" depende da situação

A palavra inadequado parece objetiva, mas o significado dela depende muito do contexto.

Latir pode ser esperado em determinadas situações e inconveniente em outras.

Correr pode ser perfeitamente normal em um ambiente apropriado e representar um problema quando acontece em outro contexto.

Até mesmo comportamentos considerados indesejáveis podem cumprir alguma função dentro de determinada situação.

Por isso, antes de perguntar como eliminar um comportamento, vale compreender em que circunstâncias ele aparece.

O comportamento não deve ser analisado isoladamente

Uma mesma ação pode assumir significados diferentes dependendo do ambiente, da situação, do histórico do cão e do que acontece ao redor.

Observar o contexto é o primeiro passo para evitar interpretações precipitadas.

O que aconteceu antes?

Uma das primeiras coisas que podemos observar é o que aconteceu imediatamente antes do comportamento.

Havia alguém chegando? Outro animal se aproximou? Surgiu um som diferente? O cão estava descansando? Estava brincando? Alguma atividade havia começado?

Essas informações podem ajudar a identificar mudanças na situação que antecederam a resposta.

Não significa que aquilo que aconteceu antes seja automaticamente a explicação do comportamento.

Significa apenas que essa informação faz parte da história daquele episódio e não deveria ser ignorada.

O ambiente estava diferente?

Mudanças no ambiente podem alterar a maneira como o cão responde.

Um espaço conhecido pode receber uma pessoa nova. Uma casa tranquila pode ficar movimentada. Um passeio habitual pode acontecer em um horário diferente.

Sons, cheiros, objetos, pessoas, animais e movimentos também podem modificar as condições da situação.

Por isso, quando algo muda no comportamento, observar o ambiente pode revelar informações que não aparecem quando olhamos apenas para o cão.

Quem estava presente?

A presença de determinadas pessoas ou animais também pode fazer parte do contexto.

Alguns cães respondem de maneira diferente dependendo de quem está próximo, de quantas pessoas estão presentes ou de como essas pessoas estão interagindo com eles.

O mesmo pode acontecer diante de outros cães ou animais.

Por isso, identificar quem estava presente no momento do comportamento pode ajudar a compreender melhor a situação.

O que aconteceu depois?

Também é importante observar o que aconteceu depois que o comportamento apareceu.

A pessoa se afastou? O estímulo desapareceu? O cão recebeu atenção? A atividade terminou? Alguma coisa mudou no ambiente?

O comportamento pode ser seguido por diferentes acontecimentos, e essas informações ajudam a enxergar o episódio como uma sequência, e não apenas como uma ação isolada.

Essa observação é especialmente útil quando determinado comportamento aparece repetidamente.

Foi um episódio isolado ou acontece com frequência?

Uma ocorrência isolada não necessariamente representa o mesmo cenário de um comportamento que aparece de maneira frequente.

Um cão pode reagir de maneira diferente diante de uma situação excepcional e voltar ao seu comportamento habitual depois.

Quando uma resposta se repete, porém, observar os padrões pode oferecer informações adicionais.

Em quais situações acontece? Com quem? Em quais ambientes? Em determinados horários? Depois de quais acontecimentos?

Procurar padrões é mais útil do que avaliar cada episódio completamente separado dos demais.

Perguntas simples podem ajudar

Quando acontece?

Onde acontece?

Quem está presente?

O que aconteceu antes?

O que aconteceu depois?

Isso acontece sempre ou apenas em determinadas situações?

O estado do cão também merece atenção

O comportamento não depende apenas dos acontecimentos externos.

O próprio estado do indivíduo também pode influenciar sua maneira de responder.

Um cão que acabou de brincar intensamente pode estar em uma condição diferente daquele que estava descansando.

Um indivíduo diante de uma rotina diferente pode apresentar respostas diferentes das observadas em um momento habitual.

Por isso, também é importante considerar como o cão estava naquele momento, e não apenas o que estava acontecendo ao redor.

Cansaço, excitação e mudanças de rotina

Situações que alteram a rotina também podem modificar o comportamento.

Um dia mais movimentado, uma mudança de horários, atividades diferentes ou acontecimentos fora do habitual podem produzir condições diferentes das encontradas normalmente.

Isso não significa que qualquer mudança de comportamento possa ser explicada simplesmente por cansaço ou excitação.

Significa que essas condições fazem parte das informações que devem ser observadas antes de chegarmos a uma conclusão.

O comportamento apareceu diante de quê?

Outra pergunta importante é identificar qual situação estava acontecendo quando o comportamento apareceu.

O cão estava diante de uma pessoa? De outro animal? De um objeto? De um som? De uma aproximação? De uma mudança no ambiente?

Identificar aquilo que estava presente não significa afirmar imediatamente que esse elemento é a causa.

É apenas uma maneira de organizar melhor as informações disponíveis.

O mesmo comportamento pode aparecer por razões diferentes

Um dos maiores riscos ao interpretar o comportamento canino é assumir que determinada ação possui sempre uma única explicação.

Um cão pode latir em situações diferentes, por exemplo, e essas situações não necessariamente possuem o mesmo contexto.

O mesmo vale para correr, evitar, puxar, vocalizar, permanecer parado ou buscar contato.

A aparência do comportamento pode ser semelhante, enquanto as circunstâncias são completamente diferentes.

Por isso, observar apenas o que o cão fez pode ser insuficiente.

Rotular rapidamente pode esconder informações importantes

É comum ouvirmos expressões como "ele é teimoso", "ele é dominante", "ele é agressivo", "ele é medroso" ou "ele não quer obedecer".

Essas frases parecem explicar o comportamento, mas muitas vezes apenas colocam um rótulo sobre aquilo que estamos observando.

Quando usamos um rótulo como ponto final da análise, deixamos de investigar o que realmente aconteceu.

Uma observação mais cuidadosa transforma o rótulo em pergunta:

Em quais situações esse comportamento aparece?

Essa mudança de perspectiva pode abrir espaço para uma compreensão muito mais útil.

Comportamento e intenção não são a mesma coisa

Outro cuidado importante é evitar atribuir ao cão intenções humanas sem observar o contexto.

Dizer que o cão "fez de propósito", "quis provocar" ou "estava tentando desafiar" pode parecer uma explicação, mas não nos ajuda necessariamente a compreender o comportamento.

O que podemos observar é aquilo que aconteceu e as condições nas quais aconteceu.

A partir dessas informações, podemos construir uma compreensão mais cuidadosa sobre o indivíduo.

O comportamento é uma informação

Um comportamento que incomoda também pode fornecer informações importantes sobre a situação vivenciada pelo cão.

Ele pode indicar que alguma condição do ambiente, alguma interação ou alguma experiência merece ser observada com mais atenção.

Isso não significa interpretar todo comportamento indesejado como uma mensagem específica.

Significa reconhecer que aquilo que o cão faz pode ajudar a revelar como ele está respondendo às condições daquele momento.

Antes de perguntar "como faço para parar?", pergunte "o que está acontecendo?"

A compreensão não elimina a necessidade de orientar o comportamento. Ela ajuda a tornar essa orientação mais consciente e adequada à situação.

Comparar com outros cães pode confundir ainda mais

Quando um cão apresenta determinado comportamento, é comum compará-lo imediatamente com outro.

"O meu outro cão nunca fez isso."

"O cachorro do meu vizinho não reage assim."

Essas comparações podem ser pouco úteis porque cada indivíduo possui sua própria história.

Experiências, características individuais, ambiente e aprendizagem podem fazer com que dois cães respondam de maneiras diferentes diante de situações semelhantes.

O histórico do cão também importa

Para compreender um comportamento atual, conhecer um pouco da história do indivíduo pode ser importante.

Mudanças recentes, experiências anteriores, alterações de ambiente e características da rotina podem ajudar a colocar o comportamento em perspectiva.

Isso não significa que precisamos conhecer todos os detalhes da vida do cão para interpretar cada episódio.

Significa apenas reconhecer que o comportamento atual não surgiu necessariamente do nada.

Quando o comportamento muda de repente

Uma mudança inesperada merece atenção especial.

Se um cão que normalmente apresenta determinado padrão passa a agir de maneira muito diferente, é importante observar cuidadosamente o que mudou.

Alterações no ambiente e na rotina podem fazer parte dessa análise, mas mudanças comportamentais repentinas também podem estar relacionadas a questões que exigem avaliação profissional.

Por isso, não é adequado assumir automaticamente que toda mudança de comportamento seja simplesmente um problema de treinamento.

Quando existe uma alteração persistente ou preocupante, buscar orientação profissional é uma decisão responsável.

Observar não significa deixar o comportamento acontecer sem limites

Compreender o contexto não significa aceitar qualquer comportamento ou deixar de estabelecer limites.

Também não significa esperar indefinidamente para agir quando existe uma situação que precisa ser administrada.

A questão é outra: agir sem compreender pode produzir respostas inadequadas ao problema real.

Observar primeiro permite tomar decisões com mais informação.

Compreender não é justificar

Existe uma diferença importante entre compreender um comportamento e considerar que ele deve continuar.

Podemos buscar entender por que determinado comportamento aparece e, ao mesmo tempo, reconhecer que ele precisa ser modificado.

A compreensão é o que permite sair de uma reação puramente emocional e começar a analisar a situação de maneira mais objetiva.

Em outras palavras, compreender o comportamento não significa concordar com ele.

O contexto ajuda a definir o que realmente precisa ser trabalhado

Às vezes, aquilo que parece ser um grande problema desaparece quando determinada condição deixa de existir.

Em outras situações, o comportamento continua aparecendo em diferentes ambientes e circunstâncias.

Essas diferenças são importantes porque ajudam a dimensionar melhor aquilo que estamos observando.

Um comportamento pontual em uma situação específica não necessariamente representa o mesmo desafio que uma resposta frequente e generalizada.

Para cães-guia, observar o contexto é ainda mais importante

Um cão destinado a uma função específica precisará conviver com uma grande variedade de situações.

Pessoas, animais, sons, ambientes, deslocamentos e acontecimentos inesperados fazem parte da realidade na qual essa parceria poderá acontecer.

Por isso, um comportamento apresentado em determinada situação precisa ser compreendido dentro do contexto em que ocorreu.

O objetivo não é simplesmente construir um cão que nunca apresente respostas consideradas inconvenientes.

É compreender o indivíduo e sua relação com as circunstâncias nas quais ele deverá atuar.

Na perspectiva Cão guiAmigo

A compreensão do comportamento começa pela observação do indivíduo dentro da realidade em que ele está inserido.

Por isso, uma resposta considerada inadequada não deve ser analisada apenas pelo que aparenta ser.

O contexto, a experiência, o ambiente e a relação com a pessoa fazem parte dessa compreensão.

Na formação de cães-guia, essa visão é especialmente relevante porque o cão não será preparado para viver em um ambiente perfeitamente previsível.

Sua futura realidade envolverá situações diferentes, e compreender como ele responde a essas situações é parte importante de uma formação responsável.

Antes de tentar mudar um comportamento, precisamos compreender o que estamos realmente observando.

Uma mudança de olhar pode mudar a interpretação

Talvez uma das mudanças mais importantes na convivência com cães seja deixar de olhar apenas para o comportamento final.

Em vez de enxergar apenas o cão que latiu, puxou, correu ou evitou determinada situação, podemos observar a sequência completa de acontecimentos.

O que estava acontecendo? O que mudou? Quem estava presente? Como o cão estava? O que aconteceu depois?

Essas perguntas não fornecem automaticamente todas as respostas, mas ajudam a construir uma observação muito mais cuidadosa.

O primeiro passo é observar

Quando um comportamento parece inadequado, nosso primeiro impulso pode ser corrigir.

Mas antes disso, existe uma etapa que não deveria ser ignorada: observar.

Observar sem pressa, considerar o contexto e tentar identificar padrões permite compreender melhor aquilo que está acontecendo.

Essa atitude não resolve todos os problemas, mas evita que decisões sejam tomadas exclusivamente com base em uma interpretação superficial.

O comportamento é o que vemos. O contexto ajuda a compreender o que estamos vendo.

Conclusão

Quando um comportamento parece inadequado, a primeira coisa que devemos observar não é apenas o comportamento em si.

Precisamos olhar para a situação como um todo.

O que aconteceu antes? Onde o cão estava? Quem estava presente? O ambiente havia mudado? Como o cão estava naquele momento? O que aconteceu depois?

Também é importante perceber se aquele comportamento foi um episódio isolado ou se aparece repetidamente em determinadas circunstâncias.

Essas informações ajudam a substituir julgamentos rápidos por uma compreensão mais cuidadosa.

Isso não significa justificar comportamentos inadequados nem deixar de estabelecer limites. Significa compreender antes de decidir como agir.

Para cães-guia, essa forma de observar o comportamento ganha importância ainda maior, porque sua formação precisa considerar a diversidade de situações que farão parte da futura parceria.

Na perspectiva Cão guiAmigo, compreender o comportamento significa olhar para o cão dentro da realidade em que ele vive, aprende e constrói sua relação com a pessoa.

Antes de perguntar como corrigir um comportamento, precisamos aprender a observar o que está por trás da situação.

Observar primeiro não é perder tempo. É começar a compreender.

Leia também

← Voltar para Comportamento Canino
← Voltar para a Biblioteca